Janeiro e fevereiro foram os meses mais quentes da história e efeito El Niño pode não ser o culpado

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Aconteceu. Os dois primeiros meses de 2016 alcançaram temperaturas que quebraram os recordes até hoje alcançados. Medições feitas pela Nasa dão conta de que janeiro foi o mês mais quente de toda a história. Medições preliminares de satélite compilados por Eric Holthaus, meteorologista que trabalha para o site Slate e é também colunista do Wall Street Journal, dão conta de que fevereiro se desviou também do padrão de aquecimento e esquentou 1,15 a 1,4 grau Celsius mais do que a temperatura no período pré Revolução Industrial.

E mais: na quinta-feira (2), segundo artigo publicado por Holthaus, o Hemisfério Norte teria alcançado um marco até maior do que os 2 graus Celsius de aquecimento global tão temido pelos ambientalistas. É bom lembrar que em dezembro, em Paris, 194 nações deram “sim” a um Acordo Climático, considerado histórico, que se propõe a deixar a Terra apenas 1,5 graus Celsius mais quente  até o fim do século.

“Esta marca tem sido há muito tempo cravada como uma espécie de marco acima da qual as mudanças climáticas podem se tornar perigosas para a humanidade. E agora  entramos nela, embora por um breve período. Mas chegamos a ela muito mais rapidamente do que podíamos imaginar. É um momento marcante para a nossa espécie”, escreve Eric Holthaus.

E, a julgar também pelos alertas dos biólogos, as outras espécies não estarão em melhor momento. A mudança do clima é uma das maiores causas da perda da biodiversidade e uma das obrigações da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) é identificar e, ao menos tentar, tratar essas ameaças.

O Polo Ártico é o lugar que está chamando mais a atenção dos estudiosos no momento, porque tem alcançado temperaturas que chegam de 30 a 35 graus acima da média. Segundo depoimento do diretor do Centro de Dados Nacional de Neve e Gelo dos Estados Unidos, Mark Serreze à reportagem publicada pelo jornal britânico “The Guardian”, o calor tem transformado o Ártico numa região cujas mudanças ele caracteriza como “absurdas”.

“O calor tem sido incansável ao longo de toda a temporada. Eu tenho estudado o clima no Ártico nos últimos 35 anos e nunca vi nada semelhante”, disse ele.

Muitos têm atribuído ao El Niño (fenômeno que causa o aquecimento das águas do Pacífico) a responsabilidade pelo aquecimento, que de 2014 para cá só tem aumentado. No entanto, o jornal britânico entrevistou o professor Michael Mann, diretor do Centro de Ciência do Sistema Terrestre Penn State, que questiona esta relação assim tão direta entre o El Niño e as fortes ondas de calor. Ele pesquisou dados sobre alta de temperaturas no passado e avaliou o impacto do fenômeno.

“Assim como eu, outros colegas fizeram esse estudo e chegamos à conclusão de que o El Niño é responsável por menos do que 0.1 graus Celsius desse aquecimento anormal. Ou seja: mesmo sem a ajuda dele, teríamos recorde de temperatura em 2015, que foi de 0.9 graus Celsius acima da média do século XX”, disse o professor.

Outro pesquisador entrevistado pela equipe do jornal britânico, Will Steffen, conselheiro do Conselho do Clima na Austrália, em parte concorda. Mas lembra que há muitos registros significativos sobre o impacto do El Niño. De qualquer maneira, diz ele, não dá para fechar os olhos às consequências que o fenômeno causa, de imediato, na vida das pessoas.

“Não podemos minimizar a importância do El Niño para o sofrimento humano”, disse ele.

É, não podemos. Nesse sentido, basta dar um giro rápido  pelas últimas notícias e vamos encontrar – infelizmente sem nenhuma dificuldade – os tais casos de sofrimento humano causados pelo El Niño. Há cinco dias, por exemplo, o Peru, país banhado pelo Pacífico, notificou a morte de oito crianças e existem fortes indícios de que os pequenos, todos com menos de 2 anos, tenham sido vítimas do forte calor na região, que todos classificam de “anormal”.

Diretor municipal de Saúde da cidade peruana de Piura, César Morón disse ao jornal “El Comercio” que o número de mortes de crianças não é comum e que o quadro clínico tem sido o mesmo:  febre, diarreia, desidratação e convulsões. A região registrou sensação térmica de 46 graus e isso, para os moradores, é calor insuportável.

Como sabem os que me acompanham neste espaço, de fato o que mais me afeta quando o assunto gira em torno das mudanças climáticas é o impacto que tufões, furacões, ondas de calor, seca e enchentes causam nas  pessoas.  Aqueles que têm recursos conseguem fugir. Sobra para quem não tem essa escolha, o pior. Perdem o pouco que tinham e ainda passam a viver à custa do estado, tornando-se refugiados do clima. Em 2014, calcula-se que houve 19,3 milhões de refugiados climáticos no mundo segundo o último relatório do Centro de Monitoramento de Deslocados Internos (IDMC). Entre 2008 e 2015 registraram-se em média 26,4 milhões de deslocados por ano, o que representa quase uma pessoa por segundo. Não será apenas a redução do  uso de combustível fóssil que vai resolver a situação. Já está mais do que na hora de fazer políticas, hoje, voltadas para quem vive o problema na pele.

Em fevereiro de 2014, a ONG alemã Germanwatch reuniu num DVD um material bastante extenso sobre mudanças climáticas, incluindo 16 casos de pessoas que são vítimas das mudanças do clima. O material é voltado a professores, equipes de organizações dedicadas a capacitar pessoas e jornalistas. Entre os casos listados no DVD está o de Ben Namakin, jovem que nasceu em Kiribati, nação-ilha do Pacífico fadada a ficar submersa em águas salgadas por conta do aumento dos oceanos. Namakin hoje trabalha na Micronesia, em Pohnpei, como professor,  e capacita jovens sobre questões ligadas ao meio ambiente. Namakin conta que o fato de ter vivido tão de perto essa realidade o transformou numa espécie de militante contra o aquecimento global. Ele foi à Conferência do Clima em Montreal, em 2005 e sempre que pode tem arregimentado jovens para sua causa.

Aos 72 anos, outro depoente para o material da ONG alemã foi Simon Oleekatalik, que mora na Península de Nunavut, no extremo norte do Canadá, terra do povo Inuit. Ele conta que seus pais sabiam distinguir um gelo bom para construir iglus, coisa impossível hoje, com camadas cada vez mais finas e pouco resistentes.

“Antigamente, no inverno, quando os dias são curtos, havia muito mais neve no chão. Hoje o clima está assim: um dia está muito frio, mas no outro já está mais quente. Parece que os tempos do ano com dias claros estão mais frios do que no inverno”.

Uma das questões mais complicadas para o povo Inuit é a relação com os ursos polares. O governo canadense permite que cacem um por ano, mas Simon conta que a carne desses bichos, antes farta e gordurosa, hoje oferece muito menos nutrientes. E, como estão cada vez mais buscando alimentos, os ursos polares andam  catando o que comer nas cidades, causando pânico à população.

O que estamos vivendo hoje nos força a desprezar o óbvio ou o senso comum, ou mesmo padrões antes rígidos quando o assunto é o clima.

Fonte: G1

 

 

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